“Quando a minha mãe conversava sobre assédio, eu ficava muito assustada”, afirma Isis Valverde

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Isis Valverde
Isis Valverde (Divulgação)

O talento e a beleza de Isis Valverde chamam a atenção de homens e mulheres. Com destaque na TV, no cinema e em campanhas publicitárias, a atriz sempre busca se posicionar sobre os mais variados assuntos.

Depois de protagonizar ao lado de Juliana Paes e Paolla Oliveira um dos maiores sucessos da teledramaturgia, A Força do Querer, a estrela se prepara um novo papel em um folhetim das 18h, O Avesso da Vida.

Em entrevista ao Observatório dos Famosos, Isis falou sobre moda, vaidade, relacionamento, machismo e as centenas de denúncias envolvendo assédio sexual no mundo das celebridades: “Já passou da hora de isso acontecer. Quando a minha mãe conversava sobre esse assunto, eu ficava muito assustada”, afirmou a estrela.


Confira:

Como você se posiciona como mulher, com tudo isso que vem acontecendo na sociedade? 

O machismo, por exemplo. São várias atitudes como: Você é casada e seu relacionamento acabou então você é culpada, porque não segurou o seu marido. Ninguém segura ninguém. A mulher não é culpada pelo fim do relacionamento. Nós estamos acordando. Mas porque a culpa sempre recai sobre as mulheres? A não ser que você realmente cause mal a alguém, roube, ou bata numa criança, dá uma tapa na cara do seu marido, você o traiu e ele te pega com outro. Eu já sabia que era assim. Desde que eu nasci minha soltou uma frase: ‘Eu não queria que você tivesse nascido mulher.’ Escuto essa frase desde criança. Não porque ela não quisesse que eu nascesse, e que fosse uma menina. Eu questionei e ela me falou: ‘O mundo é dos homens’. É muito forte e real.

Mas de que forma você acredita que esse conceito vem mudando?

Nós estamos acordando e as pessoas não estão achando mais normal. As próprias mulheres atacavam, umas as outras. Está solteira por quê? Não segura marido! Um homem termina um casamento, ele te conhece e casa com você. Vagabunda. Você não deveria ter ficado com ele. Oi? São situações que a sociedade cria, para agredir as mulheres, pra que elas fiquem doutrinadas, sejam submissas, agradáveis, fofas, não se expressam e não falem o que pensam. Se isso acontecer, vai surgir outras mulheres para cortá-las, porque elas também foram criadas para criticar a outra e apontar o dedo, mas ao homem nunca. ‘Ah, é ele é foda, incrível, mas ela é uma merda.’

Existe o movimento “Time’s Up”, em que algumas personalidades internacionais estão expondo os assédios que aconteceram no cinema, que de certa forma, também reflete na sua profissão…

Amor, já passou da hora de isso acontecer. É isso que estou falando. Quando a minha mãe conversava sobre esse assunto, eu ficava muito assustada, porque eu questionava, e quando fui crescendo e vendo tudo acontecer na minha vida, e dos outros, falei: ‘Minha mãe estava certa.’ Eu não podia deixar isso acontecer, mas não adiantava porque era como se ninguém me ouvisse. As mulheres estavam surdas e de repente o povo começou a acordar. Não pisa no meu pé. Não me dá um tapa, porque eu não mereço isso. Não aponta o dedo pra mim, eu não fiz nada. É muito lindo e eu fico até emocionada.

Quais são as delícias de ser mulher?

Nós somos camaleônicas. A mulher consegue se desdobrar mais, até porque o cérebro masculino é mais químico. Um lado do cérebro do homem, não tem conexão direta e o nosso tem. Nós temos facilidade para nos adaptar. É muito louco. Não que os homens não tenham suas qualidades, eles têm sim, e são maravilhosas, mas nós estamos falando das mulheres. Estou elogiando. Existe uma diferença fisiologicamente. A mulher consegue se encaixar.

Você se sente uma mulher sexy?

Ser sexy é não se sentir sexy. Eu sou eu. O lado sexy da mulher, vem pelo fato dela se entender e se sentir bem com ela mesma. É muito louco. Eu tenho uma amiga que é fotografa de oceano, ela tem o cabelo todo armado, queimado do sol, não é magra, até porque não somos obrigadas a ficar magras. Você tem que se sentir bem. Eu adoro malhar, é o meu prazer o meu lugar de fuga. Um dia ela chegou perto de umas meninas que mexem com moda, e andam maquiadas até na praia, um bolo de maquiagem no rosto. Uma delas é meio insegura, sabe? Opera aqui, mexe ali, não está bem. Essa fotografa é surreal, ela não tem um corpo incrível, mas é muito sexy, é linda e poderosa.

A Ritinha de A Força do Querer foi uma personagem que marcou a dramaturgia e as pessoas ainda comentam sobre ela. Você ainda é parada por conta desse trabalho?

Muito. Eu fui pra Argentina, e as pessoas me reconheciam nas ruas, mas não por esse personagem, algumas até sabiam, filhos de brasileiros, outros por causa de “Avenida Brasil” (2012) que estava passando. Era uma loucura. Se não era a Ritinha era a Suellen. A Ritinha está no coração das pessoas e eu fiquei muito feliz de elas deixarem ela entrar, mesmo sendo um personagem dúbio, já que ela era uma sereia. Uma hora você acha que ela é vilã e outra mocinha. Ela não era humana, então as pessoas não podiam julgá-la como uma. Ela era um ser místico com pernas.

Essa novela foi feita especialmente para as mulheres…

Sim, eram mulheres empoderadas. A Ritinha sedutora, a Paolla (Oliveira) a guerreira, a Juliana (Paes) o amor, que era agressivo, intenso e incrível. Dependendo da chave que você vira. No final da novela é como a sereia diz: ‘Todos temos os nossos quereres, mas cuidado, muito cuidado com o canto da sereia.’ Foi incrível e a Glória (Perez, escritora) pegou várias personalidades das mulheres que nós temos: românticas, as fortes, as que querem justiça, e colocou tudo ali, e o povo se apaixonou.

Você sente saudades da personagem?

Eu me desapego fácil. Eu amo, como amei a Maria Lúcia (Faroeste Caboclo, 2013) a Sereia, a Suellen, a Rakelli (Beleza Pura, 2008) que eu amava, mas preciso me desapegar, porque senão, não vivo outra história.

Em O Avesso da Vida, próxima novela das seis, a dramaturgia volta a falar sobre espiritismo. Você é uma pessoa espiritualizada?

Acredito em Deus, sou bem aberta e não julgo. O que te preenche é o que faz feliz. Vai, se joga. Eu acredito que exista um lugar do outro lado. Eu acredito. Não foi provado que é possível viajar no tempo, então, se isso é um fato, eu vou falar que não exista o outro lado?

Falando um pouco sobre moda, você gosta de estar antenada com o que está acontecendo nesse universo?

Eu fiz um filme chamado Amor.Com (2017) que é uma comédia americanizada, com muito humor, mas não escrachado. Nós tínhamos o drama de uma menina de moda, que tinha essa profissão. Comecei a me apaixonar, e entrar nesse mundo, observando como era escolher uma roupa, mas não como fazemos, de comprar um sapato e depois não sabemos como usá-lo. Não é legal gastar dinheiro à toa e ainda se frustrar. Comecei a aprender a comprar. Eu gosto de montar o meu look no chão do quarto. Coloco como se fosse um corpinho. Vou trocando as peças, os sapatos. Bem louca, né? Sou um pouco viciada em sapatos. Adoro bota, com ou sem salto, de couro. O sapato conversa com a ocasião. Não adianta um salto alto, como eu já vi algumas vezes, em Fernando de Noronha. E ainda fino. O sapato tem o seu momento. Ele diz se você é antenada na moda, se é confortável ou não.

Há um tempo algumas atrizes em Hollywood fizeram protestos em relação ao uso obrigatório do salto alto em eventos formais…

Às vezes não consigo entender essa cabeça, nunca pensei assim. É pequeno acreditar que temos a obrigação de alguma coisa. Nós não temos que ter obrigação de nada. Demorou muito pra acordarmos, mas nós estamos mais espertas, e não temos obrigação de nada. Nós somos femininas, simplesmente por sermos mulheres, independente se você gosta de se vestir um pouco mais menininho, ou mais patricinha.  Você é feminina, simplesmente pelo fato de ser mulher. Eu amo um salto alto, mas não uso por obrigação, se quiser tirá-lo vou fazer, mas me sinto bonita com salto, até porque sou baixinha, né? (risos)

Quando você comentou sobre aprender a comprar, quer dizer que você ficou mais consciente no sentindo do consumismo?

Não, fiquei mais consciente no sentido da peça que eu vou comprar e que combine com o que eu gosto. Significa gastar mais e refinar mais também. Na verdade, você não precisa gastar mais, se tiver um bom olho. Eu tenho uma amiga que quando vai no brechó, fico impressionada. É um absurdo. Eu estou aprendendo a fazer isso. A libertação da mulher em relação a moda, é aprender a comprar o que fica bom nela.

O seu namorado é modelo (André Resende), mas você gosta de ajudá-lo a se arrumar?

Ele é muito desencanado. Um dia nós estávamos saindo, e ele usava um short verde com uma blusa roxa. Comentei e ele trocou, mas às vezes eu falo pra ele colocar uma calça, uma blusa… Homem não tem muito isso, ele é desencanado, mas se veste bem, tem bom gosto. Ele não é burro.

My little ocean! 💋

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Além da novela, você tem outros projetos em vista?

Eu tenho um filme que será lançado em breve, Wilson Simonal. Nós já rodamos e eu faço a mulher dele. Estou loiríssima, tingi os meus cabelos, que deu uma boa ressecada. Foi bem difícil porque no filme está muito chocante. Eu amo ser morena. Gosto e não conseguia me ver loira.